FALEMOS EM PAIXÃO…

Falemos de Paixão… o que diz o nosso cérebro?

            Do ponto de vista científico, o amor não é uma coisa só. E não o é, porque está dividido em diferentes fases. E a primeira fase, costuma ter curta duração e alta intensidade. Essa fase tem o nome de Paixão. E é disso que hoje vamos falar. A paixão é uma das emoções mais interessantes que existem na vida humana.

            Do ponto de vista do cérebro, a Paixão é semelhante a uma espécie de demência temporária, com características de stress, obsessão e compulsão.

            O amor é provavelmente o afeto que mais instigou o pensamento humano ao longo dos tempos. Todas as grandes mitologias, como a mitologia grega, a mitologia nórdica, todas as grandes religiões, o Cristianismo, o Islamismo, e outras tantas, todas elas discutiram de maneira bastante profunda, a questão do amor. No pensamento filosófico, Platão foi o primeiro a escrever um grande tratado a respeito da questão do amor. O livro chama-se “O Banquete” e é um dos livros mais belos da história da Filosofia. Depois dele, quase todos os grandes filósofos se debruçaram sobre a grande questão do amor. Aristóteles, Schopenhauer, Nitch, Foucault, só para mencionar alguns.

            Na arte, a omnipresença do Amor é indiscutível. Basta que pensemos, por exemplo, em Shakespeare, ou até mesmo no cinema contemporâneo, onde até em filmes de Dinossauros, há sempre uma forma de se enfiar algum romance.

            Mas longe de ser algo metafísico, algo que está fora do corpo, o Amor é fruto da alteração do funcionamento do cérebro e apresenta-se dividido em algumas fases muito específicas.

            A primeira fase é chamada de Paixão e caracteriza-se precisamente por ser de grande intensidade e de curta duração.

            Mas então, o que acontece dentro do nosso cérebro quando estamos apaixonados? E o que acontece dentro do nosso corpo?

            Como toda a emoção, a Paixão vai ser regulado por aquilo que nós chamamos de fatores endócrinos. Ou seja, vai ser regulada pela ação de hormonas e neurotransmissores, que são substâncias químicas. Essas substâncias químicas têm efeito, de uma maneira geral, sobre o corpo e de uma maneira específica, sobre o cérebro.

Pensem nos estados psicológicos que estão envolvidos na paixão. Como por exemplo, a saudade, ou então a grande motivação que costuma estar presente na pessoa apaixonada. Cada um desses estados é fruto de certas alterações nos circuitos cerebrais.

            Vários estudos mostram que duas hormonas estão especialmente envolvidas durante a Paixão: a Oxitocina e a Vasopressina. Estas hormonas têm diversos papéis no corpo humano, mas durante a Paixão, elas funcionam como Neuropeptídeos, que são pequenos compostos químicos que agem localmente, em determinado sítio do circuito cerebral.

            A ação da Oxitocina e da Vasopressina durante a Paixão está associada ao apego, à conexão formada entre o casal. Além disso, também está associada à preferência que o sujeito apaixonado tem, por aquela pessoa específica. Então, isto significa que durante a Paixão, nós estramos extremamente ligados, conectados à pessoa pela qual estamos apaixonados. Além disso, aquela pessoa parece que é única. Chama a nossa atenção, tem o maior foco do nosso cérebro e sobressai mais do que as outras pessoas. Isto talvez explique a sensação que temos de que aquela pessoa é insubstituível.

            Também encontramos recetores de Oxitocina e Vasopressina, num outro circuito cerebral, que nós chamamos de Circuito de Recompensa. Recompensa, ou seja, um estímulo recompensador vai envolver dois elementos: a Motivação e o Prazer. Posso dar alguns exemplos de estímulos que são altamente recompensadores. Os alimentos calóricos, por exemplo, como a sobremesa e o gelado; algumas drogas, como a cocaína, ou até mesmo algumas atividades que são desafiadoras para o nosso cérebro, como por exemplo, um livro muito misterioso, um filme ou até mesmo um projeto profissional.

            Então, com eu disse, a recompensa vai envolver, em primeiro lugar, a Motivação. E a Motivação acontece quando o nosso corpo nos obriga a fazer mais do que aquilo que estamos a fazer. Imaginem, por exemplo, que estão com fome, e pedem uma dose de batata frita. Começam por comer uma batata. O que é quer o corpo vai pedir? Comer outra batata, e outra e mais outra, até que nos sintamos completamente satisfeitos. Esse é o estado motivado. Quando fazemos mais do que o que estamos fazer, falamos de recompensa.

            Existe um outro elemento que é o Prazer. O Prazer é a sensação subjetiva associada ao estímulo recompensador, que no caso da batata é o prazer de a comer. Este sistema vai envolver em grande medida, a ação de um Neurotransmissor que nós chamamos Dopamina. A Dopamina, assim como as hormonas anteriormente referidas, tem também uma série de funções diferentes no nosso corpo. Mas durante a Paixão, ela aparece associada à Motivação, ao Prazer, e portanto à Recompensa.

            A Paixão é um estado Hiperdopaminérgico. Ou seja, durante a Paixão, o circuito de Dopamina, que nós chamamos de Vias Mesolímbicas Dopaminérgicas, estão hiperativos, o que nos cria uma grande sensação de Motivação e de Prazer.

            Já devem ter percebido, que durante a Paixão têm muito mais energia, sentem-se com mais vontade, por exemplo, têm um maior desejo sexual, têm vontade de viajar, de fazer coisas diferentes, de agradar a pessoa amada de maneiras diferentes. Tudo isto está associado a uma maior ativação do vosso cérebro, nesses circuitos de Recompensa.

            Uma outra substância implicada na Paixão é a Serotonina. Durante a Paixão, os níveis de Serotonina diminuem. E há uma outra situação na qual nós sabemos que os níveis de Serotonina também diminuem: o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Provávelmente, já devem ter percebido que a Paixão tem características de obsessão e compulsão.

A Obsessão durante a Paixão é caracterizada pelas ideias invasivas. Ou seja, estamos constantemente a pensar naquela pessoa, mesmo não querendo (Obsessão). Quando estamos com essa pessoa, queremos passar todo o tempo com ela, o mesmo é dizer que queremos sempre mais e mais e esse querer mais e mais, é muito parecido com aquilo que acontece durante as compulsões.

            Não é à toa, que alguns estudos recentes, mostram que as pessoas que tomam antidepressivos da categoria dos Inibidores Seletivos da recaptação de Serotonina, ou seja, antidepressivos que elevam os níveis de Serotonina no cérebro, tendem a apresentar menor intensidade dos sintomas da Paixão.

            Uma outra hormona, também envolvida na Paixão, é o Cortisol, que é tipicamente associado às respostas ao Stress. Durante a Paixão, os nossos níveis de Cortisol aumentam. Também já devem ter percebido que durante a Paixão, temos sintomas de Euforia, de Ansiedade e de Insegurança. Todos estes sintomas estão tipicamente associados as Stress.

            Durante a Paixão, o coração bate com mais força e maior velocidade. O sistema digestivo altera-se. Como? Quando estamos apaixonados e estamos perto “daquela” pessoa, geralmente sentimos menos fome. Além disso, durante a Paixão, ficamos hipervigilantes. Ou seja, perdemos o sono. Tudo isto é característico de respostas a estímulos stressantes. Então, a Paixão envolve algo semelhante ao stress.

            Uma outra coisa interessante que acontece durante a Paixão é uma inibição de estruturas cerebrais, que nós chamamos de estruturas pré-frontais. Ou seja, estruturas que ficam localizadas imediatamente atrás da testa.

Para que possam ter uma noção do que isso significa, há uma outra coisa que gera uma inibição pré-frontal. As bebidas alcoólicas. Traduzindo, o álcool inibe o cérebro e pode parecer estranho, porque afinal de contas, a última coisa que se fica quando se bebe, é inibido. Pelo contrário, quando bebemos, ficamos desinibidos. Parece que ficamos mais soltos. Mas isso acontece precisamente porque o álcool irá inibir o nosso pré-frontal.

Entre as várias coisas que o córtex pré-frontal faz, uma delas, é fazer com que sejamos capazes de refrear os nossos desejos. Ou seja, conter os nossos impulsos. Também nos tornar capazes de ver as consequências das nossas ações, por forma a podermos antecipar possíveis consequências nefastas para o futuro. E é por isso que quando o pré-frontal está inibido, bebemos e tomamos decisões das quais nos iremos arrepender. E claro, que se continuarmos a beber, o álcool vai continuar a inibir o nosso cérebro, até que tenhamos uma séria depressão de Sistema Nervoso e nos tornemos aquele tipo de bêbado chorão, chato, que abraça toda a gente no fim de uma festa.

Curiosamente durante a Paixão, também temos uma inibição pré-frontal. O que significa que um apaixonado tem uma menor capacidade de conter os seus desejos e impulsos e uma menor capacidade de avaliar as consequências dos seus atos. Isto leva-nos a concluir que é má ideia tomar grandes decisões quando se está apaixonado. Por exemplo, tatuar o nome da namorada na nádega esquerda. Estas características, de tomada de decisão prejudicada, são muito semelhantes ao que nós encontramos nas demências.

É por tudo isto que a Paixão, do ponto de vista do cérebro, se assemelha a um estado hipermotivacional, demência temporária com características de stress, obsessão e compulsão.

Acredito que nada disto tira a beleza e o encanto da Paixão. Independentemente de tudo o que acabei de escrever, a Paixão não deixa de ser uma sensação agradável, Claro que quando ela é correspondida, porque quando ela o não é, pode ser uma das piores dores e maior angústia da vida.

Há no entanto, uma última característica que quero ressaltar a respeito da Paixão: é sempre passageira, é sempre temporária. Estudos revelam que as alterações funcionais e químicas do cérebro derivadas da Paixão tendem a durar, no máximo, 12 a 18 meses até 24 meses.

Será que saber de tudo isto tira a mágica de estar apaixonado, tira a poesia do inicio de um grande amor? Eu garanto que não, pois  quando estou apaixonada,  fico tão demente quanto vocês, aliás sejamos honestos, a alegria advinda dessa demência é uma das coisas mais prazerosas da vida. Se fosse possível viveria apaixonada eternamente.

Em jeito de conclusão diria que devemos olhar para a Paixão de uma maneira romântica, de uma maneira positiva e vivê-la intensamente, tal como disse, por exemplo, Vinícius de Moraes:

“Que a paixão não seja eterna, posto que a chama seja infinita enquanto dure.”

 

Até breve!

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