SEM TABUS – INTIMIDADES

Olá a todos!

Aparentemente, muitos tabus acerca da sexualidade parecem já ter sido abandonados. No entanto, continuo a pensar que ainda há uma falta de clareza sobre algumas temáticas.

Proponho-vos hoje, uma reflexão acerca do tema: masturbação.

Sem grandes complicações, falamos de um comportamento sexual que busca a obtenção de excitação e satisfação sexual. Hoje escreverei apenas sobre a masturbação solitária, donde essa procura da excitação e satisfação sexual é promovida pelo próprio, a si mesmo e sem participantes.

Durante séculos, a masturbação teve o nome de Onanismo, por causa de Onã, um personagem bíblico do Antigo Testamento (segundo filho de Judá), que derramava o esperma na terra, para não ter um filho com a viúva do seu irmão (o primogénito) e assim, não dar descendência ao seu irmão, por querer ser ele a reinar.

O nosso Nobel da Medicina, Egas Moniz, na 12ª edição da sua obra “A vida Sexual” (1913) concordou com outros médicos, que já consideravam a masturbação uma patologia e uma causa de doença mental. E assim, esmagada pela religião e pela medicina, a masturbação foi durante alguns séculos considerada uma doença, um comportamento proibido na adolescência e uma coisa maléfica na vida adulta.

 Na segunda metade do século XX, a masturbação passou da condição de doença a tratamento, quando foram introduzidas técnicas de masturbação no protocolo terapêutico para mulheres com problemas sexuais.

A socialização sexual é mais permissiva para os homens e mais repressiva para as mulheres. E o tema da culpa associada à prática masturbatória é, lamentavelmente, um tema do universo feminino. O facto de não se contar a ninguém, não me surpreende. As mulheres falam entre si sobre masturbação? Não me parece. Os homens falam uns com os outros sobre masturbação? Também não me parece. E homens e mulheres, numa relação, falam sobre a sua prática de masturbação? Não falam. Muito pelo contrário, em muitas situações e vidas, este é um comportamento secreto.

No contexto relacional, homens e mulheres escondem a sua prática de masturbação um do outro. Porque é que algumas mulheres escondem a masturbação dos seus parceiros? E o que é que os homens sentem quando sabem que a parceira se masturba? Falamos obviamente dum contexto heterossexual. Por um lado, a mulher teme ferir a suscetível masculinidade do companheiro, e por outro, ela própria pode ter dúvidas sobre se tal comportamento é suposto e aceitável no contexto da relação. Outra razão, na perspetiva feminina, pode ser o sentimento de incompetência associado ao facto de conseguir atingir o orgasmo na masturbação, mas não nas relações sexuais com o parceiro. As razões para manter este comportamento escondido são complexas. Pode ser ainda pelo facto de usarem estímulos particulares de que se envergonham (por exemplo, o uso de pornografia, sobretudo no caso delas). Não é fácil falar sobre isto com o outro. E também não é obrigatório, ou seja, não é negativo haver pequenos segredos. O que é negativo é a pessoa não aceitar bem o seu comportamento de masturbação e sentir-se envergonhada ou embaraçada, como se estivesse a cometer um grande pecado.

A masturbação não é de todo um substituto do parceiro. Aliás é bem sabido que algumas mulheres se sentem mais estimuladas quando têm mais atividade sexual com o/a parceiro/a e por isso masturbam-se com mais frequência. A masturbação não é mais do que uma forma adicional que visa a obtenção do prazer sexual, que naturalmente pode acontecer no contexto de uma relação ou de forma solitária. Na presença de um determinado estímulo, que pode ser por exemplo um simples pensamento invasivo que surge subitamente, uma sensação física de excitação que se reconhece no corpo, ou uma fantasia que se elabora deliberadamente, a pessoa persegue a excitação sexual até ao prazer, e embarca nisto sozinha. O prazer sexual pertence a cada um, e a masturbação é mais uma forma de o experienciar. Mas para além do prazer sexual, homens e mulheres também se masturbam por outras razões, por exemplo, para aliviar o stress ou para adormecer melhor. Algumas particularidades da masturbação feminina, dizem respeito à forma como as mulheres se masturbam. E julgo que entramos noutra ala secreta. Como é que as mulheres se masturbam? Com base em trabalhos clínicos e na escassa investigação sobre o assunto, sabemos que as formas de masturbação no universo feminino são muito mais diversas, inventivas e criativas do que no masculino. E há duas razões para que isto aconteça. Uma de ordem anatómico-fisiológica e outra de ordem socio-cultural. A primeira é relativa à complexidade da genitália feminina (um clitóris de 9 cm, quase todo escondido por ser uma estrutura interna e o mesmo sobre a vagina). A segunda razão é de novo a socialização sexual mais repressiva das mulheres, que as obrigou a desenvolver mecanismos de estimulação genital sem se tocarem diretamente com a mão, por exemplo, através do uso de almofadas e outros objetos para fazer pressão na genitália ou mesmo o uso do jato de água do chuveiro. Outra forma de masturbação que algumas mulheres relatam é através dum movimento de balanceamento de uma perna cruzada sobre a outra a pressionar a coxa. Para além disto, a masturbação inclui ainda a introdução de objetos na vagina, e o vibrador já faz parte da bagagem íntima de muitas mulheres, que o assumem como um objeto de referência para o seu prazer sexual.

Nos últimos anos, a investigação tem apresentado a masturbação como um indicador de saúde sexual. Antes de mais porque permite uma aprendizagem sobre o corpo (genital e não só) e sobre a resposta sexual. Diversos estudos têm mostrado que a masturbação tem um papel positivo no desenvolvimento sexual e revelam, nas mulheres, uma associação positiva significativa entre a pratica da masturbação e o orgasmo durante o coito, e entre masturbação e satisfação sexual. A masturbação é uma pratica sexual saudável e desejável, e ao longo da vida pode fazer parte do repertório sexual de qualquer homem ou mulher, independentemente de haver ou não um contexto relacional.

Como diz Woody Allen “Não despreze a masturbação – é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.”

 

Sejam felizes!

Até breve!

Ana Lopes

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